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FICHAMENTO: LIÇÕES DE ARQUITETURA - DOMÍNIO PÚBLICO


O livro de Hertzberger, em sua primeira parte (Domínio Público), levanta um compilado de pontos que pautam os espaços públicos, relacionando-os com a arquitetura por meio de inúmeros exemplos práticos.

Ao falar sobre demarcação e diferenciação territorial, é enfatizado que a associação entre o público e privado se dá pelo grau de acesso (geralmente, uma questão de convenção apesar da legislação), da supervisão, da utilização e das responsabilidades (cuidados e manutenção, por exemplo) envolvidas. Um espaço, teoricamente, público pode servir como local para prática de interesses individuais das pessoas, colocando em questão o fator público. Assim, seria ideal projetar espaços com um grau de demarcação territorial através da articulação/circulação e respeito a certos padrões (exemplo: diferentes tipos de portas, com ou sem transparência, para diferentes acessos) para conscientizar, racionalmente ou não, os indivíduos que utilizam o espaço. Isso pode ser já na planta do edifício.

Princípios similares se aplicam ao zoneamento territorial, que necessita de noções de zelo e ordenamento vinculadas à alguém. Se esses conceitos forem deixados, de maneira apropriada, bem explícitos para os usuários do local, os mesmos podem se sentirem livres o suficiente para fazerem alterações/personalizações no ambiente, desde que faça sentido no contexto. Um simples exemplo disso é, ao colocar uma prateleira ou um mostruário na parte externa de uma sala de aula, os alunos podem se sentir inclinados à exporem alguns dos seus trabalhos, mudando os elementos e sua disposição como quiserem. É necessário um bom planejamento para determinar onde e em que condições seria legal uma contribuição ativa por parte do usuário ou morador, o que poderia levar a um envolvimento maior no arranjo e mobiliamento de uma área. Entretanto, também é preciso ressaltar a importância do lugar/domínio particular e seguro que todos precisamos ter - sem um ninho para voltar, não conseguimos colaborar com os outros.

A multifuncionalidade de ambientes é um conceito muito interessante. Nele, espaços podem ser moldados para diferentes funcionalidades ou ocasiões, permitindo uma adaptação para uma considerável (a depender) gama de possibilidades. A troca de formatação ou deslocamento de mobílias em um cômodo e adequação de halls/corredores de escolas com bancos e boa iluminação são simples exemplos que permitem uma multifuncionalidade. Todavia, torna-se necessária certa cautela, pois ao fazer movimentos como esses, invadir um domínio privado pode ser iminente.

Ao discutir demarcação territorial, entramos no princípio de intervalo, que compõe aqueles elementos que fazem transição (soleira) entre diferentes tipos de espaços (privados ou públicos), eliminando uma divisão rígida entre eles. Essas zonas devem ser confortáveis, pois, geralmente, são pontos de encontro (boas vindas, despedidas...) ou de espera e cumprem uma importante função social. Entradas cobertas, bancos nos alpendres entre apartamentos e meias-portas são exemplos que acomodam mundos adjacentes. Essas ações qualificantes podem ser feitas por moradores que, motivados, se sintam inclinados a aumentar suas influências para uma esfera pública. Isso proporciona um sentimento de identificação no âmbito pessoal que contrasta com obras municipais, por exemplo, que podem ser percebidas como uma imposição vinda de um poder maior. O ideal, assim, seria que a comunidade local se sentisse responsável, em certa escala, pelo espaço coletivo (pelo menos do seu edifício), melhorando, pelo seu esforço, as áreas de lazer e conforto. Entretanto, há obstáculos para isso. Na sociedade em que vivemos, o controle governamental nos impede de tomar certas liberdades, o que impossibilita os desenvolvimentos de condições, possivelmente, mais hospitaleiras e, consequentemente, causa uma alienação (potencial motor para destruição das propriedades públicas). Isso é refletido dentro da própria comunidade que julga e vigia os outros. É necessária certa emancipação perante esse aspecto.

Ruas de convivência são aquelas que servem como extensão comunitária das casas e onde os moradores possuem expectativas em comum. Entretanto, comportamentos de afinidade nesse tipo de lugar estão sendo substituídos pelo sentimento de independência criado por uma idealização de prosperidade, o que corrobora, ainda mais, para alienação, além de um controle social. Situações assim deveriam ser evitadas e o convívio estimulado (melhorando a qualidade da rua e emancipando o seu status no conceito dos seus moradores), visando, assim, atingir um ponto de equilíbrio entre o particular e coletivo. O layout da fachada/fundo de uma casa, sua integração com a rua e as características (extensão, atmosfera, densidade, etc) da via tem fortes influências nessa questão. 

Em um centro habitacional, espaços para eventos são importantes locais de convívio que devem incrementar o auditório principal. O domínio público deveria ser tratado com mais ênfase, pois ele estimula a interação social. Praças são grandes exemplos que permitem colocá-la em prática, mas é o comércio que sempre foi a principal razão para intercâmbio social (com as galerias, tem-se circuitos de pedestres no núcleo das áreas das lojas). O teto de vidro das galerias dão uma sensação de interior e exterior ao mesmo tempo, quebrando a fronteira do público e privado. Essa relação é muito importante para se criar um sentimento positivo sobre esses ambientes. Esse mesmo conceito deve ser aplicado nos edifícios que devem ser complementares e trespassantes. A qualidade dos diferentes (ou nem tanto) tipos de ambientes, suas relações (e possíveis ambiguidades) é influenciada pela organização espacial e atmosfera criada, incluindo dimensões, forma, materiais e gradações. 

É possível relacionar esses tópicos discutidos com a conceituação de Vilém Flusser acerca dos objetos em "Design: Obstáculo para a remoção de obstáculos?". Ele diz que o objeto é um problema/obstáculo no caminho cotidiano de um indivíduo e que só consegue ser vencido por meio de outro objeto (de uso) que, por consequência, atua também como obstáculo. Além disso, segundo o autor, objetos de uso funcionam como mediadores entre os homens: ao se criar objetos, tem-se uma responsabilidade intrinsecamente atrelada ao indivíduo e sua forma de viver. Nesse sentido, podemos traçar um paralelo entre o pensamento de Flusser e os princípios de Hertzberger (principalmente com as zonas de transição entre o público e o privado e as responsabilidades dos moradores para com os ambientes coletivos). A arquitetura pode ser vista como um objeto de uso composto por vários objetos e possui uma tendência mediadora de relações humanas. Ela condiciona o modo como vivemos e nos movimentamos no espaço. Quando Hertzberger fala sobre zonas de transição, multifuncionalidade e envolvimento do usuário, ele propõe justamente uma arquitetura que reconhece essa mediação, buscando torná-la consciente e participativa através de um sentimento de apropriação e pertencimento.


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APRESENTAÇÃO

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